DEPOIS DE TER UMA JORNALISTA NEGRA COMO PRESIDENTE, O CONSELHO DE COMUNICAÇÃO DA BAHIA, MUDA DE ÁGUAS.




Jornalista e publicitaria, Marlupe Caldas, começou sua trajetória como assessora de comunicação e professora, atualmente é assessora especial na Secretaria de Desenvolvimento Rural, e, em 2014, encarou a tarefa de ser a primeira mulher negra a ocupar a pasta de comunicação no governo da Bahia. Desafio que a mesma considera o mais importante até aqui.


“Sem sombra de dúvida, assumir a secretaria de Comunicação Social foi, até agora, meu maior desafio profissional... mas, já peguei, como diz por aí, a casa arrumada, o que de certo modo me deixou tranquila e mais segura.”

S K - Você se orgulha de ter sido a primeira mulher negra secretária de comunicação, e, também, presidente do conselho de comunicação da Bahia?

M C - Quando soube que seria eu a ficar à frente da Secom, eu não tive dúvidas que tinha o dever de aceitar. Aceitei não só por mim, mas porque entendo o papel social e a simbologia que tem uma mulher negra, assumir o mais alto posto da comunicação na Bahia. Chego a me emocionar, quando falo disso publicamente, porque não foi fácil. Muitas vezes, sabemos da nossa capacidade, do nosso potencial, mas o preconceito ainda dificulta a ascensão da mulher e de negros e negras. Uma vez num encontro sobre Comunicação Popular, uma mulher me perguntou por que eu aceitei e eu não titubeei em responder que foi também para nos empoderar. Muito mais que para ter o cargo de secretária de estado no currículo, aceitei o desafio porque precisávamos mostrar que também podemos, que somos competentes e que, apesar dos desafios diários que todas nós enfrentamos, somos retadas. Tenho uma enorme satisfação em ter feito parte disso, parte da história.

S K - A sua gestão é de sucessão, então, você deu continuidade as ações iniciadas pelo antigo secretário Robinson Almeida. Como você lidou com a inevitável comparação que os conselheiros faziam entre você e o antigo secretário? Entre uma mulher e um homem na presidência?  
M C - (risos) Sinceramente não sofri desse mal... Na realidade, costumo brincar, até hoje, que a partir da minha gestão à frente do Conselho, as reuniões passaram a ter um quórum maior que anteriormente, inclusive, com a participação de suplentes que voltaram a ser convidados para as reuniões ordinárias, então devem ter gostado das minhas conduções também. Mas, realmente, não percebi entre os conselheiros e conselheiras uma comparação, acredito que entenderam que, apesar de termos a mesma base ideológica, atuamos e temos formas de trabalho diferentes. O que houve mesmo foi um grande respeito ao trabalho dele e ao meu e eu agradeço a todos por isso.

S K - Do ponto de vista prático. O que mudou na sua gestão?
M C - O período de gestão em que estive à frente do Conselho, coincide com a do segundo mandato do corpo de conselheiros, então dei sorte. A maioria dos conselheiros foi reeleita e, por isso, já estava à par de como funcionam as reuniões ordinárias, extraordinárias, os regramentos e, principalmente, a forma de atuação do Conselho.  Acredito que isso facilitou e ampliou o diálogo entre nós e a obtenção de consensos. Nós discutíamos muito, no pleno de forma aberta e coletivamente encontrávamos soluções. Nisso, com certeza, avançamos.

S K - Você poderia pontuar os resultados da sua atuação como presidente do Conselho?
M C - Ao longo desses anos, os conselheiros e as conselheiras titulares e suplentes participaram ativamente das reuniões, orientando e sugerindo ações, realizando fóruns, debates, como a série Diálogos da Comunicação, cursos de formação e de qualificação profissional para toda a área na Bahia. A minha impressão é que arrumamos a casa e deixamos de legado muitos avanços, deixamos, por exemplo, uma proposta para aumentar as condições de sustentabilidade das emissoras de rádio comunitárias; fomentamos a cadeia produtiva do audiovisual baiano e, principalmente, consolidamos o diálogo com a sociedade.

S K - Existia na política de atuação do Conselho algum alinhamento com as decisões tomadas pelo governo federal? Alguma parceira com o Ministério de Comunicações, por exemplo?
M C - Nossas diretrizes gerais sempre foram norteadas pelas ações e políticas do governo federal, mas, sempre levando em consideração a adequação para nossa realidade aqui na Bahia. Historicamente essas ações mais voltadas para politicas públicas foram tocadas, em nível federal, pela Secom da Presidência e nós tínhamos sim muito alinhamento. O MiniCom nos auxiliava nas questões mais práticas ligadas a telecomunicações, banda larga etc.
  
S K -  Na sua opinião, quais são os principais desafios do conselho para o futuro?

M C - O principal desafio, que está previsto na lei que o constituiu, é auxiliar o Governo do Estado na construção do Plano Estadual de Comunicação. Esse plano não é um plano de governo, é um plano de Estado. Não é uma coisa que você vai fazer para os próximos quatro anos. O Conselho tem que discutir hoje quais serão os eixos norteadores para a Política de Comunicação Social do Estado para os próximos anos, próximas décadas. Além desse desafio, que para mim é fundamental, entendo que temos que ampliar a participação de mulheres no Conselho, ampliar o diálogo com os movimentos sociais e entidades do setor, esses aspectos devem ser fortalecidos, bem como a capacitação dos profissionais desse mercado de comunicação.
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