A Depressão da Mulher Negra



Eu não sei na sua família, mas, na minha que tem 9 mulheres negras a gente aprende depois dos trinta a não se abater mais por desventuras. As vezes parece que estamos maquiando a tristeza, mas, a verdade é que se a gente parar pra pensar não vive. É tanta vida real a olhos nus que para nos deixar no chão só tragédia.  Mamãe dizia: menina viva seu tempo. Você ainda é criança quando for adulta vai querer voltar a infância! Porque eu não ouvi mainha? Todo esse tempo ela tinha razão. Agora crescida tenho um nome para essa “adultisse” que almejei - depressão!


Mês passado uma amiga psicóloga, Fabiane Vieira, me falou de um tipo de depressão em mulheres negras não quantificada pelos dados da Saúde. Quantas dores não perceptíveis há na nega velha que não sai da porta do bar? Na dona de casa que levanta as 5h para arrumar seus filhos para escola? Na estudante que pega 4 ônibus pra terminar a faculdade? Conheço várias que mesmo sofrendo vivem sorrindo como se não houvesse nada. Calada lá no fundo da alma está a angustia que não encontra tempo nem lugar para ser externada.


A depressão da mulher negra não está prostrada apenas nos indícios palpáveis. Não está passível de diagnóstico. Não é só angústia, falta de sono e apetite, não é só moleza no corpo e solidão. A depressão da mulher negra acorda de manhã, sorri pro dia e vai trabalhar. Só quem aguenta ser sincero sabe daquela  falha na engrenagem. Da dor sem lugar nem momento para ser externada. A gente apenas suspira - Umhuuuuuum!

Em momentos extremos esta farsa se revela - Você viu fulana? Ficou louca do nada! Mas, não foi do nada que aquilo começou. Primeiro abdicou dos sonhos. Esmurrou pontas de faca até constatar a dureza que é ter uma vida digna ao mesmo tempo que busca ser feliz. Sem herança para patrocinar os projetos teve que escolher entre ter satisfação no trabalho ou ganhar dinheiro para garantir o pão. Depois ficou sozinha, deixada pelo/a conjugue que de alguma forma a convenceu que o problema estava com ela. Aí vem os filhos. A expectativa de uma vida depositada neles, miseráveis como ela ainda aprendendo a andar. Este texto deve ser levado a sério porque isto aqui não é vitimismo.

Tenho sorte de me cercar também de mulheres que acreditam nas saídas para os desalentos afetivos e os escombros nas estruturas psíquicas da mulher negra, uma delas, a jornalista Rosane Borges me lembra "Considerando os aspectos multifatoriais deste processo é preciso manter a busca pela sororidade, alegria e leveza. O racismo e o sexismo nos condiciona, mas, não nos determina." diz.

E eu, termino este artigo, refletindo as palavras de Carla Akotirene que sabiamente coleciona aprendizados da sua atuação como assistente social em um posto de saúde de Salvador "Às vezes a gente quer enlouquecer para fugir da humilhação, da pancada, da traição. Antes lembremos que há um caminho espiritual a ser percorrido. Não vou adoecer. Nossa ancestralidade está de pé!".
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About Sueide Kintê

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8 comentários:

  1. Amei Sueide... Acho que sofro então de vitimismo. Porque me identifiquei tanto com este texto. Mas nós, mulhertes negras nem podemos nos dar a ter depressão. É um luxo. Não temos tempo pra isso. Por isso ficamos louca.

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  2. Um sorriso, um baton e muitas, muitas vezes... um copo cheio ou até ao meio de uma bebida que lhe ajudará a esquecer os motivos dos seus sonhos não realizados. E um dia em uma mesa de um bar ou até mesmo em casa percebe se que o tempo passou ah o tempo... senhor das dores, das alegrias, da vida. Mulher negra, guerreira pura e unicamente por ser negra.

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  3. Me vejo, me perco ou acho no meio de cada palavra.

    Muito bom!

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  4. Parabéns, Sú. Um debate de extrema necessidade!

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  5. Fui lendo o texto e lembrando das inúmeras vezes que escutei "seja forte"

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  6. Agradecida por nos brindar com texto verdadeiro e autêntico. Ele nos representa.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Muito obrigada por esse texto.
    🌸

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