Maré Cheia


Foto: Samadar Kintê

Não sou atéia nem atoa. Tenho água salgada de frente e água doce detrás de mim. A que fica na frente me dá força. É sereia enfeitiçada pela serpente que mora no céu e faz a terra girar. Aquela detrás me dá paz.Meu lado lua. Tão forte e inevitável quanto a nuvem que precipita chuva e cai derramando-se nos mistérios do Rio Niger, no açude Macaúbas,no Dique do Tororó. É sim. Aquela água toda. Aquela força toda. Aquela profundezade dar medo.

Dois lados, um marolas, o outro maremotos. Ondinhas que se formam no meio do oceano e batem nas pedras do Porto da Barra. Um véu que brilha, reflete e equilibra. Vivo assim pequenina debaixo das mantas hídricas que benze tinos, reza rumos, cura juízos abalados, lava bocas maledicentes enchendo canecas e moringas.

Dessa falange sou eu. Tataraneta duma torrente que tudo flui e penetra, até mesmo as mais áridas almas. O que há dentro de mim? Por que dói tanto ser como as águas quentes e esverdeadas da praia de “SantômedeParipe”? Guardo segredos e anseios num tantinho de mar por cima da areia. Assim vou sendo tsunami que anseia tomar cidades. Um poço sem fundo.

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About Sueide Kintê

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2 comentários:

  1. Seu texto é tão profundo quanto sua essência, por um momento senti a briza do mar e o gosto da água salgada. Realmente, você é um poço, um mar, um rio e sua água corre entre a vida dos seus.

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  2. Que bom que te tocou Mia...o texto é nosso

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