Capulanas



Débora Marcal - Capulanas

por Carla Akotirene

Quem usa transporte público sabe bem o que é sentar numa cadeira e, de repente, uma mulher negra tentar puxar assunto para desabafar. Falar do filho que desapareceu, do marido que deixou 05 filhos para ela criar sozinha, do motorista que não parou no ponto uma hora atrás, da patroa que desconfiou da honestidade dela.


A este respeito meu irmão Carlexandro, ontem, à noite, indagou: "Carla, mas você não acha desequilibrada a pessoa que não te conhece, mas já estar desabafando contigo, contando a sua vida"? 

Pensei: pelo mesmo motivo há nos “manicômios” muita gente preta institucionalizada como não saudável apenas por que enxergam o quê outros não estão vendo; falam sozinhas; choram diante de uma mulher igual que acabou de cruzar o seu caminho. Envolve, nesta realidade, portanto, também dimensões ancestrais pouco valoradas em nossas percepções, criando aproximações. 



No exercício profissional percebo atualmente uma demanda crescente de mulheres para encaminhamentos em saúde mental. Machucadas pelo racismo, abandono e outras violências preferem não desmontar as representações de si mesmas como fortes, guerreiras, incapazes de chorar diante dos seus filhos, homens e comunidade. Daí passam a falar sozinhas, chorar sozinhas no ponto de ônibus ou com as marés vazantes, nas redes sociais, olhando para os céus. Quando dão por si, necessitam desabafar para profissionais cujas abordagens, filiações e métodos são bem propensos à linearidade, objetivação, privilegiamento da razão, distanciamento da nossa composição mediúnica.

Olhando o feminismo e mulherismo nos EUA, boa parte das intelectuais o é por conta da socialização comunitária em poesia, livro, grupos terapêuticos acerca das suas trajetórias e vivências pessoais - experiências legitimantes dos respectivos conhecimentos. Tina Turner, bell hooks, Alice Walker, Hill Collins, Angela Davis, Angela Angelou, dentre outras. Todas partem da autoridade de suas emoções, de ter vivido uma circunstância marcante no corpo e alma, componente do legado e existência comuns. 



Com a gente boa parte das vivências e resistências emocionais vem sendo dita pelos jornais, nos trabalhos acadêmicos filiados à história oral ou história de vida, no olhar de quem é apresentado a tal contexto, na terceira pessoa. Geralmente quando ocorre um estupro, violência, chacina, depressão, revidincação coletiva, pois nenhuma de nós quer parecer guerreira desequilibrada ao compartilhar nossas dores na primeira pessoa para outras mulheres.

Na verdade, temos poucos espaços de confiança, confidências e trocas afetivas. 
Segundo a professora Elisabete Pinto, quando as mulheres negras se reúnem para partilharem das suas histórias de vida, das suas experiências de dor ou superação, elas estão criando uma comunidade. Conhecemos-nos e nos identificamos em cada nota de dó, em cada cantiga de nossos antepassados, no blues. Numa acepção mulherista, não deve ser as secretarias de governo a nos motivarem a partir das suas agendas a andarmos juntas, a nos encontramos.

O campo das emoções poderia ser menos profissionalizado, poderia oferecer menos capital intelectual para os nãos negros, caso dispuséssemos de espaços de escuta, trocas, empatias e laços. Espaços capazes de olhar para nossas cicatrizes emocionais da mesma forma pela qual olhamos para o Estado, haja vista “ o pessoal é político.”
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