Sumiu mais um



Mesmo já suspeitando a resposta a gente continua a perguntar: cadê Amarildo? Mesmo sabendo que ele sumiu da mesma forma que somem diariamente jovens negros dos bairros de Periperi, Calabetão, São Caetano, Calabar, Bom Juá e outras comunidades pobres do Brasil nós não cansamos de cobrar o leite derramado: "cadê  Amarildo?"

Eu sou de Paripe, bairro situado no subúrbio ferroviário de Salvador, senti na pele o desconforto de ter um pai, irmão ou namorado negro que sai de casa sem saber se retornará. Pois, para sobreviver em favelas como a que eu nasci é preciso ter vigilância: desvie dos carros pretos com vidro fumê, mantenha distância dos motociclistas de capacete, e,  atenção, muita atenção ao trombar o carro da polícia.  Qualquer vacilo perto desses personagens pode significar desastre. Afinal, é desse jeito que se apresentam os monstros motorizados que agem covardemente contra nossos parentes. 

Nosso cotidiano é conviver com as milícias e grupos de extermínio espreitando a vida de homens, que, ao carregarem na pele a mesma cor da noite já estão sentenciados. Paripe é fronteira com o CIA (Centro Industrial de Aratu), local popularmente conhecido como desova da cidade. Cemitério clandestino dos defuntos enviados criminosamente pra "terra do pé junto". Lá estão muitos desaparecidos, que como Amarildo, não voltarão mais para casa. Eu rezo para que não ter notícias de outro levados para lá. Enquanto isso, nossos meninos correm risco de serem confundidos com a cara do crime, e seus assassinos sentem-se honrados com a devastação. A mídia e o estado, co-autores da devastação: tripudiam do nosso genocídio anunciado - Sumiu mais um.
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About Sueide Kintê

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