A-traída por Complexo

Urânia Munzanzu, Sueide Kintê, Fabiana Braz                                                                                                  Foto Samadar Kintê

Censurei-me fortemente antes de iniciar este texto. Eu tinha que escrever sobre isso, mesmo sobre pena de parecer piegas e repetitiva. Pelo menos escrevendo eu poderia dar indícios de melhora às minhas amigas que morrem de dó quando me vêem reclamando da falta de sexo e maldizendo a vida. Ter 20 e poucos anos não tem facilitado as coisas, e olha que eu não sou tão feia assim.

Talvez por isso, freqüentemente recebo toneladas de conselhos do tipo: Você deveria fazer assim ou assado. Você é muito inexperiente e não sabe o que é a vida. Isso de amor não existe, casamento é contrato. O pior que já escutei foi - Você só faz falar, na prática não resiste, ostenta um pseudomoralismo por pura vaidade, homem é homem com ou sem aliança, fica logo com o cara e esquece que tem esposa. No final das contas os conselhos não funcionam nem para mim nem para elas, estamos todas sozinhas dizendo vou bem obrigada, pensando muito em sexo, ganhar dinheiro e afeto. Só pensando.

Via de regra o que nos resta é jogar conversa fora em qualquer lugar "Na rua, na chuva, na fazenda". Tem vezes que começamos sentadas no banquinho da cozinha e terminamos cochilando na almofada da sala. Apesar de angustiante o falatório das comadres é revelador neles rogamos a "Nossa Senhora da Providência" que nos conceda uma graça e conspiramos sobre a vida dos homens em fracos planos para dominar o mundo a cada dia. No fim das contas o saldo são as fichas que vão caindo ao ouvir as críticas uma da outra.

A ultima ficha caiu ontem, mas não foi deste divã meia-boca instalado na cozinha de minhas cúmplices, despencou lá no meio da minha sala onde divagava um moço de lábios grossos, "bunitu", com uma cara de homem maduro um ursinho de pessoa. Ele cheirando a suor de mulher, ajeitava os óculos ao mesmo tempo em que procurava uma posição adequada para deitar no tapete, eu concertando o vestido para não dar pala da calcinha fazia exalar fumaça de chá e cachimbo, enquanto ouviamos "Sorry" da Tracy Chapman.
Um clima de concílio tomava conta do lugar até que ele disse a frase que justifica a existência deste texto - "A mania de se dedicar à complexidade do outro estraga as relações." Como assim? A minha profissão é se dedicar à complexidade dos outros. Ouvi calada enquanto dizia internamente a mim mesma - Viu? Bem pregada. Embaraçaram-se tantas coisas na minha cabeça. Então o problema está comigo? Teria eu atração pela complexidade de meus afetos?

Faz mal querer saber se ele sente cócegas nas axilas? Se tem problema com a família, trauma do tamanho ou espessura do pau, se está feliz no trabalho, enfim essas coisas. Que tipo de namorada seria eu se deixasse ele se ferrar com suas próprias complexidades? Quero alguém interessado na minha complexidade também, ora bolas, alguém para fortalecer meus sonhos na vida, coçar minhas costas naquele lugar que não alcanço, escutar minhas crises com o trabalho e com a família, e, principalmente, tomar minhas dores nas brigas do condomínio.

Talvez essa seja a justificativa das minhas longas horas de solidão."Mininas" vamos dar um tempo nas conversas de cozinha, nos dediquemos todas sobre as nossas próprias complexidades. Passei um tempão achando que quando se está junto tudo que as pessoas querem é alguém que se dedique sobre elas e suas idiossincrasias. De repente não é isso, talvez isso gere a temida cobrança. Vocês sabem né? A cobrança é repelente para homem.
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About Sueide Kintê

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1 comentários:

  1. Perdoa-lhes "senhoras" eles não sabem o que dizem!. As conversas de cozinha e que nos mantém conectadas as nossas "complexidades compartilhadas". Quem sabe tal vez precisemos mantê-las só entre nós, como num chá de cozinha, afinal serão eles que estarão sozinhos para lidar com suas idiossincrasias tão "normais"!

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